
Cannes vive um paradoxo: o cinema está em tudo e o cinema é quase um detalhe. Centenas de pessoas se amontoam na frente ao tapete vermelho; mulheres espetaculares desfilam seus modelos milionários; aspirantes a paparazzi ganham uma grana tirando foto de desconhecidos nas ruas, para depois colocar em sites da internet; iates impressionantes ancoram a alguns metros da praia para o deleite de quem pode, Mas é à noite que tudo acontece de fato. As festas pagas pelos estúdios, para celebrar o lançamento dos filmes em competição, são disputadas na porrada e tem gente que faz qualquer coisa para entrar em uma delas e dividir a pista de dança com alguma celebridade bêbada, e quem sabe…
Bem, eu estive em algumas das festas mais bacanas deste ano. Desde o extremamente formal jantar oferecido para a equipe do filme de Jaques Audiard, “Un Prophète”, grande favorito à Palma de Ouro até agora, até num inferninho em um barco de produtores colombianos, que festejavam qualquer coisa que pudesse ser festejada. Na comemoração pelo filme de Audiard, em uma casa no alto de um pequeno morro de onde se via toda a cidade e seus barcos iluminados, o jantar foi servido às 21:30 para poucos convidados. Depois, o restante das pessoas (que só havia sido convidada para a festa e não para o jantar) chegava em ônibus fretados e bebia noite adentro. Tudo é superlativo em Cannes, e não seria demais dizer que este é o lugar do mundo com mais gente bonita por metro quadrado.
Crise & discrição
A crise mundial pegou o festival em cheio e criou um fato curioso. Enquanto que, no ano passado, a cidade estava consideravelmente mais cheia de turistas esbanjando seus lucros em carros caros e loiras cafonas, este ano tudo me parece mais discreto e elegante. Desde os cartazes dos lançamentos americanos até os vizinhos das mesas do lado, nos restaurantes da Croisette.

Não precisa ser analista financeiro para perceber como a crise mudou a cara do festival. Os estandes do Marché du Film (foto) estão, em sua maioria, vazios. Os hotéis ainda têm vaga e alguns apartamentos na praia ainda exibem placas de aluguel, quando o festival deveria estar bombando. As festas, que fizeram parte do corte de despesas das produtoras, ainda existem, mas são extremamente mais selecionadas, o que pode ser bastante interessante se você for um dos poucos convidados.
Há dois dias, a Wild Bunch, importante agente de vendas internacional, famosa por fazer uma das festas mais “louquinhas” da Riviera, preferiu mudar seu esquema e alugou um casarão no centro da cidade, para fazer uma coisa mais rock de garagem em petit comité. Eu estava lá, com alguns amigos alemães, que ano passado disputaram a Palma de Ouro com “Valsa para Bashir”, na competição oficial, e, digamos, que a ressaca já virou um estado perene na nossa vida.
No dia seguinte, foi a vez de me levarem para a festa dos tais colombianos, em um dos restaurantes na areia da praia. Eles co-produziram “Viajes del Viento”, que concorre na mostra Un Certain Regard. Pude conhecer cada esquina escura e passagem secreta daquele lugar, com direito a participar de rodas de discussões calorosas com feministas bêbadas – e seus planos de emancipação das mulheres árabes.
Depois, fui convidado para o barco, onde rolou um after “solo para los amigos” e digamos que a noite em qualquer lugar do mundo só começa de verdade quando o Amauri Junior já foi dormir há muito tempo.

Ontem, Lars Von Trier e seu “Anticristo” (foto) me deixou sem vontade de sair. O mergulho bizarro pelos sonhos de uma mulher enlouquecida pela morte do filho, uma mistura intencionalmente desagradável de surrealismo, expressionismo e filme B, dividiu a sessão de gala entre aplausos, ânsia de vômito e vaia. O filme foi inspirado em sua experiência recente com a depressão e conseguiu expor seus demônios e dividir com a platéia, sem egoísmo, toda a loucura e os medos de uma mulher.
Duas horas antes, Ken Loach havia recebido 10 minutos de aplausos no bem-humorado, mas não menos sério, “Looking for Eric”, com a participação do jogador de futebol francês Eric Catona, que foi ovacionado como nunca vi em Cannes.
Nesta semana, ainda me falta Almodóvar, Tarantino, a festinha privada da Sharon Stone e, claro, o filme do Heitor na quinta (21). A expectativa é grande. Eu vi o filme na sala de montagem sem qualquer correção de cor e trilha temporária e já gostei bastante. Um belíssimo trabalho do Heitor, do Ricardo, da O2 e da Focus. O elenco já está aqui e uma estrela será descoberta: Laura Neiva, uma menina de 15 anos com talento de gente grande.
Por Roberto Vitorino, produtor executivo de “A Girl and a Gun” (próximo filme assinado por Heitor Dhalia) para o blog Diário de Cannes.