
Ontem chegamos muito tarde da festa de “À Deriva”. E hoje de manhã, Heitor saiu cedo para a bateria de entrevistas que durará todo o dia. Por conta disso, ele me pediu que escrevesse um pouco sobre a noite de ontem, só pra matar a curiosidade dos leitores do blog. Assim que ele voltar para o apartamento, escreverá ele mesmo suas impressões da estréia.
Chegamos ao “Les Costes”, restaurante na beira da praia (e preferido do Vincent Cassel, ator de “À Deriva”) mais ou menos às 19:00hs. Estava marcado um coquetel, antes do filme, que foi exibido às 22:30hs. Heitor estava lindíssimo em seu smoking Alexandre Herchcovitch. Todas as mulheres do filme usaram preto: Déborah Bloch, Nathalia Zemel, Andrea Barata, Bel Berlink, Joana Mariani e eu. Nesse início de noite, ainda está bem claro por aqui e foi bom olhar o mar e os trajes de gala juntos.
Um pouco antes de escurecer, chegou Laura Neiva, a protagonista Filipa de “À Deriva”. Ela estava brilhante, dentro de um vestido dourado lindo! Realmente, uma estrela.
A hora da projeção se aproximava e aos poucos fomos ficando tensos. Eu olhava para o Heitor conversando com as pessoas e sentia o turbilhão que passava por ele naquele momento.
Vincent trouxe seu amigo Tarubi, um francês professor de capoeira que fala português perfeitamente e é apaixonado pelo Brasil. O papo seguia animado.
Já estava escuro quando a Bel passou pelas mesas dizendo “Vamos lá?”. Procurei Heitor com os olhos e lá estava ele, puxando o paletó para baixo e esfregando as mãos uma na outra em seguida. Um gesto típico dele (quem conhece visualizou). Um gesto que indica sua ansiedade.
Saímos do restaurante em carreata. Heitor, eu e Lin – sua manager americana. Estávamos em um carro oficial do festival, que seguia o carro do elenco. A surpresa foi que os carros pararam em frente ao tapete vermelho principal do Palais, o que não é usual para filmes da mostra Un Certain Regard. A porta do carro foi aberta, Heitor desceu, virou-se para mim e estendeu sua mão. A partir daí, não lembro exatamente o que aconteceu.

A equipe toda no tapete vermelho. Flashes de fotógrafos, poses… Não podia acreditar que éramos nós. Não podia acreditar que era o “À Deriva”. A equipe do filme atravessou o tapete. Os nossos convidadados permaneceram em frente aos carros, esperando a hora de entrar. Ouvi o Cauã dizer: “Vou buscar a Grazi”. Eu disse: “vai!”. Cauã atravessou novamente o tapete sozinho e voltou de mãos dadas com ela. Lindos, arrasaram.
Heitor, Vincent, Laura e Débora se separaram de nós nesse momento. Nós tomamos nossos lugares e aguardamos dentro da sala. Alguns minutos depois, os quatro são chamados ao palco, um por um. Vincent se apresentou como “Vicente Cassel, um ator franco-brasileiro”. Ele fez seu discurso em português e disse que amava muito o Brasil. Heitor falou brevemente e, depois de alguns agradecimentos, dedicou a sessão à Laura. Foi bem bonito.
Quando Heitor chegou e sentou ao meu lado seguramos bem forte um na mão do outro: começava a sessão. Não preciso dizer o quanto amo esse filme. Ele foi o primeiro roteiro em que trabalhei, antes mesmo dos meus curtas. Um projeto que começou tão pequenininho e virou um filme tão lindo.
Não vou falar muito dele – do filme – porque vocês, em breve, vão vê-lo no cinema e terão suas próprias impressões. Mas preciso falar do que senti durante a cena final – sem descrevê-la, claro!
A cena foi filmada numa praia da Marinha. Um lugar isolado onde só se chega de barco. Estou aqui olhando os Diários do set “À Deriva” e relembrando essas filmagens. Sim, há um diário não publicado que descreve todos os dias da equipe em Búzios. Escrevi esse material durante todo o tempo de filmagem. Quando estava em São Paulo, Heitor me ligava invariávelmente no fim do dia com o relato da diária. E, durante as duas semanas que passei em Búzios, pude escrever do meu próprio ponto de vista. E uma dessas oportunidades foi no dia da filmagem da cena final, na praia da Marinha.
p>Chegamos em barcos, que era a única maneira de chegar. As equipes de maquinária e câmera tentavam desembarcar em meio as ondas da arrebentação. Foi uma loucura. Cena de guerra. Tanto que essa diária ficou conhecida como “O dia D”, o “Desembarque na Normandia”.
Lembro que a Bel cortou o pé descendo pelas pedras e que o sol estava muito forte.
Finalmente, quando a praia estava conquistada, a cena final de À Deriva foi filmada. Muitas pessoas presentes naquele momento choraram. Eu incluída.
O lindo foi ver que Filipa (Laura Neiva) e Mathias (Vincent Cassel), por um breve momento, haviam se tornado pessoas reais. Olhava para os dois naquela praia e lembrava das palavras escritas no roteiro. E como aquelas palavras se transformaram em praia de verdade, mar de verdade, sol de verdade e, especialmente, pai e filha de verdade.
E foi a imagem desse pai e dessa filha que encerrou a sessão de ontem na Sala Debussy do Palais des Festivals. As luzes acenderam e estávamos todos com cara de choro. Muitos aplausos para Laura, Débora, Vincent e, claro, para o Heitor. Esse menino de Pernambuco, que ama tanto o que faz, recebia as ondas de aplausos completamente maravilhado. O filme merece.
Nota especial para os aplausos no momento em que o nome do Ricardo Della Rosa apareceu na tela.
Sim, o público gostou. Toda a angústia se dissipou. O público da Debussy se encantou por À Deriva.
O filme está voltando para casa. Esperamos ansiosos por sua acolhida.
Por Vera Egito, co-roteirista de “À Deriva”, para o blog Diário de Cannes.